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Crítica Literária

Caboclo mandingueiro

Sobre o romance de estréia de Pedro Américo de Farias

2010-04-06

André Di Bernardi Batista Mendes

A Ateliê Editorial acaba de lançar Viagem de Joseph Língua, romance de estreia do poeta pernambucano Pedro Américo de Farias, que narra as travessuras, as aventuras e as peripécias de Joseph, que sai em busca da República da Poesia. Logo de cara, num pequeno prefácio, o escritor Marcelino Freire solta o verbo, ao falar sobre o livro: “Vivemos à míngua. Sempre à espera de uma riqueza. Pequena que seja. De uma novela como esta, que vem sacudir nossa moderna (?) literatura brasileira”. Pedro Américo tergiversa, ilude o leitor, diz que vai, e não vai, mas volta e refaz. Sem parcimônias, o escritor brinca soberbamente com o discurso. Jogos de linguagem, brincadeira de roda, parlendas. Sua prosa busca ser e é sempre inoportuna, pois nada esclarece. Pedro Américo prolonga a delícia de contar. Ele explica: “Busco urdir trama indigesta, olho o entorno, quanta gente na rua, prisão, escola, escritório, e a gana da gente atrás de grana, de partir pra luta ou partir mesmo, pra longe, eis a minha matéria, de par com a curtição das línguas.” Pedro Américo, sem medo, enrosca, arrisca-se, no núcleo, no seio da palavra. É claro, perde de lavada, mas também ganha outros tantos, em termos de sentido, em termos de poesia, com uma pronúncia peculiar, muito própria (mas nunca apropriada), deslavada e suja. “Dedógrafo das letras, não posso ficar parado, vendo nuvens de gafanhotos sobre a plantação; não, não e não, corro e mexo, tenho mais o que fazer. Palavras na bandeja insultam e se oferecem, procuro reunir as mais agradáveis ao leitor; as medonhas também me interessam, fortes ou frágeis que sejam, conforme a situação.” Está dito. O fato de ser, antes de tudo, um poeta, parece que fez um bem danado para o fluxo, para sua estreia, para a nova prosa de Pedro Américo. Da poesia para a o texto corrido, um pulo, um salto maroto, sempre doido. Cheio de astúcia, bulindo com a sintaxe, Pedro encontrou um rumo, propondo novos recortes, novos modelitos para a sua, para a nossa língua. Mas nem tudo são nuvens brancas e flores de arco-íris. Cheio de raiva e escárnio, o personagem Joseph também acusa, levanta sua fala, sua ira lúcida contra a cruel máquina do sistema, do cotidiano, ao descrever favelas, cemitérios e agruras. “Pra chibata em pelourinho não nasci, evadido do curral e da marca de ferro: gado não sou de rebanho, quem tiver seu brasão em brasa que ferre a mãe; sou o boi mandingueiro encantado, que arrombou a cerca, abriu porteira, apurou ouvido, urrou gemido e foi embora, jogando coices ao vento, e mostrando língua.” Nervo exposto. Pedro Américo, através de Joseph, passa uma ideia, uma estranha sensação de não pertencimento. Ás vezes, diante do absurdo, diante do trágico, o riso solto, mas sem alegria, sem contentamento, torna-se uma (talvez a única), saída viável. Pedro Américo mostra este esgar, o nervo exposto do poeta como arma para enfrentar o medo. A literatura, às vezes, pode se transformar em broca ou esmeril. Muitas vezes engraçado, licencioso, Pedro Américo aponta para o óbvio, para a idiotice, para a nudez do rei exposto. Com toda pompa e galhardia, ou melhor, sem pompa, nem circunstância, Pedro Américo insufla, sugere, insinua, mas nunca arremata a questão. Ele deixa em aberto, no ar. Mais importante é sonhar. Joseph Língua quer simplesmente chegar ao seu país ilusório. Ele, assim, desmonta e remonta, ao seu bel prazer, o real, e inventa, e cria fábulas. Com gaiata alegria, ele retira o fraque e a cartola das palavras, do verbo vivo. O primordial, para Joseph, é recontar, é ficcionar (“friccionar”) o mundo, vida com vida, pedra com pedra. Joseph Língua, ou Zelíngua, como ele mesmo conta, quer juntar estilhaços, com o pé, com a sua alma de poeta fincada no que pode haver de lírico. Como se sabe, partir pode ser um ótimo negócio, partir é preciso. Segundo Pedro Américo, é necessário fugir, de tudo e de todos. “Visitei terras de Oropa, França e Bahia, umas em viagens de leitura e imaginação, à Júlio Verne, outras em viagens de ir e vir mesmo, vendo, conversando, trocando, vendendo e comprando idéias.” Sempre atento e brincalhão, Joseph encontra, desta forma, sua pátria, para logo em seguida perder, para logo em seguida reencontrar, signo gerando signos, sua República poética, numa viagem que jamais acaba. Ele solicita e convoca: “Eu, Joseph de Faro, língua e caminhante solitário, reforço: convido os presentes ao gozo da palavra em liberdade.” Meticulosamente doido. Pedro Américo. Vespúcio, descontente descobridor de novas e maiores águas. Pedro Américo. Pedro Álvares, descobridor de fogos e fagulhas. Um vândalo, entre vândalos. Ou talvez apenas Joseph Língua. Corisco rebelde, tecelão, taludo José Ninguém. Pedro Américo de Farias nasceu em Ouricuri, em 1948. Licenciado em letras, desenvolve e concebe projetos editoriais e trabalha com oficinas de leitura em voz alta de poesia. Publicou Livro sem título (1973), Conversas de pedra (1981), Picardia (1994) e Linguaraz (2009), todos de poesia.

 

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