O rompimento da Barragem de Algodões
2009-06-24
Gerardo T. Dantas
HÁ exatamente quatro semanas, em rede nacional, o Brasil inteiro tomou conhecimento do rompimento da Barragem dos Algodões; localizada no município de Cocal da Estação, no extremo norte do estado do Piauí.
Já havia a algum tempo que este era um assunto recorrente para toda a população da região. Por lá, estive no final de abril e constatei a preocupação de todos. Era voz corrente, estava mesmo na “boca do povo” que a Barragem poderia estourar a qualquer momento.
Em 14 de abril de 2009 esta possibilidade se tornou absolutamente real e a televisão mostrou para todo Brasil que o risco era iminente. Dentro deste quase pânico geral, recomendou-se e providenciou-se a retirada dos moradores ribeirinhos ao Rio Pirangi. Enquanto isto, tentou-se uma recuperação às pressas das partes da Barragem que haviam sofrido avarias e que, como conseqüência, poderia provocar o rompimento. Tudo feito com um certo improviso, que deixava a todos muito preocupados. Para uns e outros, o que importava era “aparecer bem na fita”, como quase que dizendo: “mamãe, olha eu aqui na Globo”.
Uma semana depois, os ribeirinhos foram aconselhados a retornar para suas casas, pois a situação de risco teria sido controlada. Não falo de competência técnica, mas de um mínimo de bom senso; por que não esperar mais um pouco, uma vez que as chuvas continuavam muito fortes na região? Por que tanta precipitação e tão pouco respeito com a vida de milhares de pessoas?
Em 27 de maio de 2009, a tragédia, plenamente anunciada, aconteceu! As 11 horas e 30 minutos daquela manhã de quarta feira a Barragem dava sinais inequívocos de que se romperia a qualquer momento. Os operários, que foram levados quase ao sacrifício, entraram em pânico e começaram a bater em retirada, levando consigo as maquinas com as quais se debateram na tentativa quase suicida de evitar o desastre. Felizmente, houve tempo de chegarem a lugares seguros. Foi muita sorte, pois nestes casos, ninguém pode determinar o tempo do rompimento definitivo. Pouco antes das quatro horas da tarde, um grande estrondo ecoou, de ponta a ponta do vale do Rio Pirangi. Ouvido a quilômetros e quilômetros de distancia, era como se fosse a repreensão de Deus, à teimosia e imprudência dos homens.
“Só não foi muito pior, porque Deus é grande”! Esta expressão de fé e resignação é voz corrente na região; e com muita propriedade, diga-se de passagem! Só imaginar de que tudo, do começo ao fim, em vez de ter acontecido pouco antes do meio dia, tivesse acontecido pouco antes da meia noite, teríamos tido a maior catástrofe da História do Brasil; certamente com centenas e talvez até milhares de vitimas fatais. Felizmente: “Deus é grande”!
Depois do desastre, muitos por lá apareceram. Uns, com o sentimento nobre da solidariedade, para ajudar no que preciso fosse. Outros, nem tanto: muito mais para aparecer, por puro exibicionismo, levando consigo um séquito de “Papagaios de Pirata”, ávidos por aparecem na televisão. Outros tantos, piores ainda, para lá se deslocaram, por puro proselitismo político, com finalidades eleitoreiras; num futuro próximo. Brincar com a desgraça dos outros é certamente o máximo que a degradação humana pode alcançar.
E as responsabilidades? Onde ficam as responsabilidades? Onde estarão os responsáveis e como encontrá-los? Esta tarefa, cabe ao Ministério Público. A “Constituição Cidadã” de 1988, conferiu aos promotores e procuradores o papel de “Xerife da Sociedade” e a eles compete o poder de identificar os culpados, definindo, com muita clareza, a responsabilidade de cada um e pedindo em juízo a condenação de todos os envolvidos no processo.
Tenho dito que na tragédia de Cocal talvez esteja a “face mais cruel da corrupção”. Não tenho autoridade legal, para me envolver na questão; mas como cidadão e Engenheiro Civil, com participação em estudos, projetos e construção de Grandes Barragens, não posso e nem tenho o direito de me calar, diante de um fato tão grave; principalmente para contribuir para que outros tantos descalabros possam ser evitados.
O fato é que erros grosseiros foram cometidos. Barragens existem no mundo inteiro, com a finalidade de evitar cheias; e acumular água, tanto para o consumo humano e animal, como para irrigação; fundamental para o desenvolvimento das regiões sujeitas a grandes estiagens. É uma obra da maior responsabilidade técnica, exatamente porque do seu funcionamento seguro depende muitas vezes a vida de milhares e até milhões de pessoas. Não se venha com o argumento de que tudo não passou de um fato imprevisível, porque os projetos de engenharia servem exatamente para prever as situações mais críticas, contemplando os períodos chuvosos; os mais rigorosos possíveis.
Tecnicamente, temos algumas possibilidades, a partir das quais, os responsáveis pela tragédia podem ser identificados. Sem uma análise dos projetos e dos documentos originados do acompanhamento feito pelo laboratório, nos materiais aplicados na construção, fico eticamente sem condições de emitir uma opinião, responsavelmente conclusiva. Outra possibilidade seria a falta de manutenção e as reparações que se fizessem necessárias, executadas no tempo devido. Uma responsabilidade da qual não há qualquer sombra de dúvida, cabe aos Gestores “aloprados” que determinaram e incentivaram o retorno da população ribeirinha às áreas de risco. A insensatez e falta de experiência fazem dessa gente, sem dúvida alguma, protagonistas deste filme de terror.
Fique muito claro, no entanto, o seguinte: o despreparo geral, somado ao destempero emocional de pessoas desqualificadas para assumirem cargos de tamanha envergadura na administração do Estado, não exime a responsabilidade daqueles que negligenciaram nos estudos, projetos e execução de uma obra de engenharia que, ao contrário de dar origem a esta “Cronologia de Uma Tragédia Anunciada”, deveria ter sido uma fonte de vida e a garantia de vida decente para as centenas de famílias que povoam o Vale do Rio Pirangi.
Gerardo T. Dantas é Engenheiro Civil.
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